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Apanhar merda e políticos


Hoje, o Senhor ao qual alugo um dos quartos da minha casa cagou-se à minha frente.

Não, não estou a falar de peidos. Borrou-se irremediavelmente todo. E eu, que até gosto de fazer piadas fecais, não achei piada nenhuma à situação. Primeiro, porque o homem está de cadeira de rodas, logo, a sua capacidade para chegar ao chão para apanhar a merda é nula. Já se vê que vai sobrar para mim. Segundo, porque aquela merda cheirava MESMO a merda.

Então pronto, depois do Senhor se ter desculpado, ter praguejado contra o leite de cereais com chocolate e ter ido para a casa de banho se lavar, eu respirei fundo (uma quantidade de vezes), cortei cartão e fui recolher a borradela.

Tal como vocês estão a imaginar e a sentir, foi angustiantemente nauseabundo, preenchido de ouras estomacais. Mas, como já passei por situações semelhantes, aguentei os escrúpulos e lá fui expurgando os meus pecados, recolhendo merda com cartão. Deitei tudo para o saco do lixo e passei a esfregona com lixívia no fim.

Hércules teve que fazer as doze tarefas, mas ele era um gajo com uma força bruta, filho de Zeus. Há outros (eu), filhos de homens e sem estômago de Hércules, que têm a tarefa de apanhar merda mal cheirosa.

Hoje fui eu a limpar a merda de um, amanha serão outros a limpar a minha!

Assim que terminei, peguei no meu casaco, na minha mochila, no saco do lixo que continha a merda, e parti para as minhas tarefas menos fecais do dia.

A verdade é que apesar de não gostar da tarefa que me foi incutida pelo oráculo dos intestinos do homem, esta deu-me que pensar. Deu-me para pensar que às vezes é preciso limpar uma boa borradela para acordar momentaneamente para a vida.

Neste dia-a-dia, em que o dia flui insonso, em que as dores que nos assolam são feitas apenas de ilusões, faz-nos bem apanhar um estalo do cheiro palpável da realidade.

(Talvez o que faça falta aos políticos portugueses é ter que apanhar alguma borradela de vez em quando).

Dia do Livro


Hoje, sendo dia do livro, nada melhor para o comemorar do que ler durante o dia todo.

Emergir na mística global do livro. Apreciar o cheiro das suas folhas (velhas ou novas, amarelas ou brancas); apreciar o cheiro da sua tinta, o relevo da sua capa, as marcas singulares da sua impressão, os seus traços de idade (que nos fazem imaginar as eras por que passou), ou a imaculada limpeza (característica da sua antestreia). E, depois de me imbuir de tal mística, depois de me influir nela e me cobrir no seu suave manto, submergir da realidade pura para a realidade ficcional.

Assim é ler, um bom livro. Para quem gosta de viajar e tem pouco dinheiro, aconselho. Mesmo assim, ainda sou apologista de que nada se supera em experiência à viagem real. Apesar disso, ler ainda é capaz de nos transportar por mundos inimagináveis, viver situações, seres, locais, que jamais poderíamos experimentar na realidade, ou ousar experimentar.

Um desses mundos, e sem dúvida uma das melhores histórias lidas por mim, é um livro escrito por George Orwell, intitulado “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”.

Claro que simpatizei com ele por representar o ano do meu nascimento e por ser de Ficção Cientifica. Mesmo assim, o que mais me fez adorar este livro foi o facto de despertar em mim algo que nenhum outro livro me levou a experimentar. Reparem, quando termino de ler um livro, normalmente, ou sinto nostalgia, ou preenchimento, ou insatisfação (perante um mau final). Neste caso, foi uma junção de nostalgia com desespero. No fim apenas pensava - “que final dramático, desesperante, espetacular! Não há escapatória possível!”. Leiam o livro e verão do que estou a falar.

O que mais adoro nos livros de Ficção Cientifica é a sua capacidade de indagação profunda dos problemas do Ser Humano, sendo por isso cronologicamente transversais e actuais a qualquer época. “1984” é um livro escrito em 1948, que se debate com questões sociais actuais - a diminuição da privacidade devido às tecnologias e a consequente eliminação da liberdade, aproveitada e perpetuada pelo governo. A sociedade distópica, criada por George Orwell, é a encarnação máxima da conspiração e da não liberdade.

Apesar do enredo da história decorrer num regime totalitário, poderia muito bem decorrer em administração democrática. Equacionando este pensamento ao brilhante trama da história nasce uma maravilhosa sensação de desespero ao ler o final. Uma sensação inevitável, pois esse mesmo é o objectivo do autor. Fazer-nos sentir assim.

Só posso exclamar “fenomenal”! Assim se fazem e se lêem bons livros!

Esta é a minha forma de saudar o dia do livro, aconselhando-os um bom livro. Outro a não perder será “O Triunfo dos Porcos”, do mesmo autor. É uma fábula simplesmente hilariante.

Boas leituras, e feliz dia do livro.

O Natal é para os adultos.

Quando eu era adulto, nessa altura, o Natal era bom. Lembro-me perfeitamente do espaço quente e relaxante desse dia. Nessas alturas, apreciava com gula o bom bacalhau e bebericava o meu vinhito até à meia-noite. Depois, recebia as prendas com a passividade de quem não espera, ou e quem aguarda, novamente o nada.

Como adulto, a preocupação para com o Pai Natal era nula, congruentemente inexistente com a sua própria inexistência. O Natal era relaxante. Repousante. Momentos repousados nas coloridas achas da lareira, no abraço quente da família.

Mas agora, bem… a partir do momento em que me tornei criança, o Natal transformou-se num dia emocionalmente complexo e stressante.

Os adultos não entendem. Como poderiam entender. Passo meses a pensar nas prendas, a escolhe-las, a assinala-las nas revistas, a deseja-las, a decora-las, a escreve-las nas cartas ao Pai Natal. No fim, no fim nunca me sai nada do que pedi. Ainda por cima a nossa perceção de tempo é completamente diferente da dos adultos. Para eles a noite passa num ápice, mas para nós, num ápice não se passa a noite. Desde o anoitecer até às zero horas, a ânsia eterniza-se, em expectativa. Agora o bacalhau é imprestável, sem sabor, completo com as batatas secas e couves azedas. E, quer queiramos ou não, passamos a acreditar no Pai Natal.

Como é que isso é possível? Não faço a mínima. Por causa deste fenómeno ficamos horas e horas à janela, a ver se o vemos voar pelo céu, no trenó. É uma constante espera para o apanhar, mas é o fracasso a apanhar-nos sempre.

Os adultos ainda gozam connosco devido à nossa crença. À meia-noite à sempre um deles que se disfarça de Pai Natal. Deve-lhes dar um gozo do caraças tentar-nos enganar, a nós, que somos crianças. Como se não percebêssemos que aquele não é o Pai Natal verdadeiro.

Daaah!

Depois vem a distribuição das prendas. Ficamos ali parados, ansiosos por ouvir o nosso nome, a ansiar sempre por mais uma, a ansiar pela desejada. Infelizmente, o Pai natal nunca me dá o que quero, dá-me sempre o que preciso. Não percebo. Nunca hei de perceber. Se o Pai Natal é assim tão inteligente, se consegue saber quem são as crianças que se portam mal e as que se portam bem, como é que não percebe que aquilo que eu quero talvez seja aquilo que eu precise?

Adultos… O Natal é para eles. Fingem que o Pai Natal não existe e passam a vida a divertir-se a comprar prendas. Não entendem, não percebem a nossa ânsia. São demasiado velhos para decrescerem ao nosso pensamento.

Como gostava que não fosse assim, como gostava de um Natal mais relaxante. Como gostava de voltar a ser adulto, nem sei porque dantes desejava ser criança.

Fatura?...

Por vezes é impossível contornar o mal. Evitar o erro dos outros. Que um amigo esmurre a cabeça na parede. Quantas vezes já avisei: Não vás por ai, não adiantando de nada. Quantas vezes já me avisaram: Por ai vais-te enterrar, mesmo assim, lá fui eu para o auto-enterro. Faz parte da vida, do crescimento, ou do que lhe queiram chamar.

No entanto, quando falo desta incapacidade para reverter o mal dos outros, estou a falar do mal por mal, do erro consciente, deliberado e propositado. Não no erro da inocência, como quando uma criança mete a mão no fogo, por não saber que queima. O que pretendo falar é sobre outra coisa e sobre as implicações reais desse comportamento nato. Para isso, dar-vos-ei um exemplo pessoal.

Desde tenra idade fui um aluno medíocre, preguiçoso e pouco maduro para poder atingir certas matérias. Como resultado as negativas sempre se acumularam. Passei sempre de ano com duas ou três negativas. A português, a matemática e a inglês era um “0-“ (zero à esquerda). E isto desde a quarta classe.

Lembro-me perfeitamente das minhas primeiras negas, minha mãe ficou tão desiludida que me deu um enxerto de porrada. Ok, até pode não ter sido um “enxerto”, mas como qualquer criança com 9 anos de idade maximizei o acontecimento. Por isso, o pouco pareceu muito.

A partir dai, sempre que apresentava uma negativa, minha mãe gritava, berrava, ralhava e eu ganhava umas bofetadas. Independentemente disto, continuava a minha má progressão escolar. Apesar da minha mãe, pelo reforço negativo, me tentar fazer bom aluno, não conseguiu. Aliás, a certa altura comecei a mentir sobre os testes e a esconde-los. Ou seja, a situação piorou.

Cá está, o ponto fulcral do que quero transmitir. Eu, mesmo sabendo que fazia mal em mentir, preferia-o em vez das estaladas. E, por mais que alguém me viesse dizer para não mentir, continuaria na mesma. Faz parte da natureza humana, escolher uma desprazer menor para evitar um desprazer maior. Levando o exemplo ao extremo, é matar para não ser morto.

Chegando onde quero, à política. Imaginem o governo como a minha mãe e o povo como eu. O governo bate nos contribuintes, aumenta os impostos, corta suicídios, corta aqui, corta ali. Famílias desempregadas, dividas acumuladas, empresas fecham, ordenado diminui, preços aumentam. Ainda por cima, a maioria dos contribuintes sente que não mereceu por tal estalada. Então, o que é que o povo (como eu quando criança) faz? Exatamente, mentir e esconder.

Por isso, senhores políticos, bem-vindos à corrupção que tentaram diminuir, ao trabalho clandestino, à obscuridade. Se é com fatura ou sem fatura, já não será preciso perguntar, aliás, já não é.

Brinca com o meu coração

Queres brincar com o meu coração? Tudo bem, não há problema. Faz dele gato-sapato. Chama-me quando quiseres. Rejeita-me quando te apetecer.
Sim! Faz de mim objeto do teu ego! Egotiza-te em mim! Marca-te em brasa na minha carne! Imprime-te em intenso estampado na minha energia, para quando saíres a rasgares violentamente.
Faz de mim um banana. Um mole banana passivo. O teu bébé, o teu menininho, o teu criado, o teu escravo. Enche-me de desejo para te divertires a não o satisfazer. Humilha-me! Humilha-me à frente de todos, à frente de mim mesmo. Espezinha-me. Esmaga o meu coração. Tortura-me emocionalmente.
Faz o que sabes fazer de melhor. Ser bela e endeusada, diabólica e endiabrada. Um desejo impossível de alcançar, um poder utópico de obter. Hum… como eu te quero. Como eu agonizo em lascívia, em gula, em luxuria, em… AAAARRRRRR… Provoca-me…
Quando te cansares… Bem!... Quanto de cansares… não te preocupes, irei brincar para outro sítio. 

A Subjectividade do Síndrome de Peter Pan

A criança que existe em mim, quase sempre, domina o adulto que sou.
Manipula-o.
Por causa disso não socializo, não saio, não me divirto.
Quando isso acontece, ela birra e desespera.
E, quando todos os adultos se encontram no formalismo de conversas intelectuais, ausentes de sentido pessoal algum, logo fico com uma incrível pressão cerebral, que me faz peidar verbalmente.
Arroto um vocábulo estranho pela goela.
Ou será pelo rabo?...
Franzem os adultos as orelhas, fazem moucos narizes.
Piadas… Piadas… Estupidas e despropositadas. Gargalham só na minha mente.
Ninguém alcança o adulto subentendido nelas.
Crianças preocupadas de mais com a sua adultez, com a formalidade de comportamento adequado moralmente.
E, isso é a reacção às minhas graças, porque a reacção a comentários sérios é de um nível muito mais evoluído de eloquência. Desde respostas do género “sim porque sim” e “não porque não”, até aos braços de ferro emocionais de melhor argumento.
Fico ainda mais criança, perplexo perante este enredo.
Crianças, a brincar à razão.
O meu adulto finge que não entende…

Sobre mim

Sobre mim: cai o peso de toda uma conotação. Um estereótipo que imagino quando olho para os olhos que me fixam, que me obrigam a me fixar.
Por isso, jamais serei e saberei o Real de Mim mesmo, porque sou o que os outros pensam, confundido pelo que me levam a indagar.
E porque a Realidade se ofusca quanto mais afastadas forem as perspectivas, busco-me por detrás do olhar dos outros, nunca perdendo nunca as minhas.
Mesmo assim, tudo não passa e sempre será, uma mer(d)a estereotipia.

Insónia



Sete e meia da manhã.
Porra porra porra porra! Vá lá por favor vá lá por favor!
Novamente durmo mal outra vez novamente.
Doí-me o lóbulo frontal corrói-se-me o estomacal ventre.
Não estou descansado e nada me deixa descansar.
Alguém, algo, alguma coisa, faça-me parar.
Mas porque porra quando durmo, me vem sempre à cabeça, não a Vida mas o dia-a-dia?
Porque a Vida é algo muito mais lato, metafisico, abstracto.
O outro é porqu’é simples, e baseia-se no prático.
No entanto, já não sei o que penso, ou o que devia pensar, e confundo-me em sentimentos sobre o que devia raciocinar.
Revoluteio-me, na cama, constantemente me maço, com a almofada. 


Entra o sol no meu quarto, destapando as cores que se escondem, e olho para o meu pálido lençol, atentamente, divagando em nada.
Na sua brancura observo um ponto, um ponto que aos poucos se insinua.
Parece-me mexer-se…
Foco-me, nele, e tento entender o que é. O que era suposto não estar cá lá, mas está…
Exalto-me de nojenta repulsa. Uma larva de mosca, gorda, castanha, asquerosa, arrasta-se como uma víscera atrofiada, enroscando-se nas suas espirais.
Meu sistema digestivo contrai-se numa dor enjoativa.
Percepciono um ligeiro formigueiro nas pernas.
Entro em pânico por imaginar o que significará e descubro-mo instantaneamente.
Confusão!, medo!, sufoco!
Compelem-se larvas pela minha pele, mexem-se em buracos na carne dos meus pés, nas minhas coxas, no abdómen, no peito.
Comem-me...
Aceleram, lentamente, a minha putrefacção. 


Acordo com um espasmo.
Doí-me o estômago…
Doí-me a cabeça….
Em manhã cedo,
Ainda cansado…

Faça-se chuva!

O meu humor flutua ao sabor do tempo.
Não percebo. Não sou eu que o domino. Não. Sou apenas um mero espectador sem forças para me impor.
Se o sol aparece sou pateticamente feliz. Se as nuvens se insinuam sou estupidamente triste.
Nem adianta lutar. Tentar impingir-me a mim mesmo alegria em céu negro e escuridão em céu aberto.
Não me governam os Deuses, ou o tolo do destino (porque não acredito em nenhum deles). Mas a madrasta da natureza domina-me. E hoje, passou o dia todo a ameaçar-me. A prometer que me daria uma porrada de chuva.
Podia cair o Carmo e a Trindade, chover sapos, bolas de gelo, meteoros, podia chover a cântaros, grossas gotas, encher tudo, molhar tuto, arrastar toda a depressão pelo esgoto abaixo.
Mas não. Nem chove nem deixa chover.
E eu aqui, com vontade da molha, da água a escorrer-me pelos cabelos, da nostalgia, do enredo, do som, do movimento, da frescura da sua cura, de ir lá fora ser lavado por dentro.
Mas hoje, o dia não esteve para ai virado. E tem andado a enconar durante meses.
Quando fica assim, eu fico como ele, sou como ele, o limiar entre o ser e o não-ser, a margem de mim, a seca.
Ele brinca com os meus sentimentos, enubla o meu pensamento, frusta todas as minhas tentativas de ser bem, alegre, solarengo, calorento, radiante, esperançoso, confiante.
E fico assim, parado, cinzento… Uma puta de merda de tempo…