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Impressões

Lisboa. Entro no metro, entalo-me nas latas de sardinha. Subo escadas, desço escadas. Percorro os passeios. Confundo-me entre um emaranhado de sons vocais, pedestres e automobilísticos. Enquanto vagueio vou olhando para as personas que me rodeiam.

Reparo que as expressões faciais que vou observando são peculiarmente parecidas. A maiorias das pessoas com quem me cruzo tem, por assim dizer, uma não expressão. Uma expressão que prima pelo não reflexo de uma emoção. Por isso, toda a gente com quem me cruzo parece ameaçadora e intimidativa, zangada e má.

Eu retraio-me, ao olhar para estas caras. E na fragilidade do meu Ser vou adoptando, aos poucos, a mesma não expressão, para me defender da expressão dos outros.

Há coisas que nunca mudam

Há coisas que nunca mudam. Não, não estou a falar dos acontecimentos banais do nosso dia-a-dia, estou a falar de algo mais pessoal, a personalidade. E porquê este dilema? Ora, porque há traços nela que nos fazem agir constantemente da mesma forma errónea perante certos e determinados estímulos. Traição, vicio, ansiedade, impulsividade, raiva, violência, entre outros. Falo disto com um pouco de amargura, porque sinto que nunca deixarei de ser tudo o quede negativo eu sou.

À pouco tempo vi um documentário na televisão sobre um método terapêutico de eliminação de fobias. Tratava-se do caso de uma rapariga que fora violada e que por isso desenvolvera a fobia de sair à rua. Na clínica de psiquiatria decidiram implementar na doente um tratamento experimental. Esse consistia na escrita pormenorizada do acontecimento traumático e na constante audição do relato do acontecimento. Em cada sessão seria medido o grau de ansiedade da doente e antes de cada sessão seria administrado um fármaco. Segundo o médico psiquiatra este fármaco eliminaria as conexões neurais que estabeleciam a ligação entre a ansiedade e a história da violação. Isto só aconteceria se a doente após tomar o medicamento ouvisse e repetisse a história.

Do ponto de vista do médico era o fármaco que fazia efeito, do meu ponto de vista a constante repetição e exposição à história e o efeito “placebo” é que contribuíram para a diminuição da ansiedade. Logo, as conexões que supostamente o fármaco eliminaria ainda continuam lá.

Outra forma de transformação da personalidade, para além dos tratamentos com psicólogos, é a meditação e a oração. Esta baseia-se na repetição constante de uma característica da personalidade positiva. Por exemplo, “sou amável”, ou “sou corajoso”, ou “ sou activo”. De modo a eliminar uma característica negativa a frase meditativa deve ser sempre positiva, nunca do género “não sou arrogante”, “não sou impulsivo”. E qual a explicação neurológica para que este método elimine os traços negativos da nossa personalidade? Precisamente através da desconexão das conexões neuronais.

Hum… Dá que pensar! E eu, claro, fiquei a pensar. Reparem, desde que nascemos essas conexões são formadas e à medida que crescemos mais conexões vão sendo criadas. Essas novas apoiar-se-ão nas anteriores e assim sucessivamente, reforçando-as constantemente. Será assim tão simples eliminar conexões neurológicas que formam a nossa personalidade desde a mais tenra idade? Elas formam a base e os pilares daquilo que somos. Conseguiremos nós deixar de ser quem somos?

A esta pergunta respondo afirmativamente, mas não penso que seja possível através da desconexão neurológica. Isto devido ao que afirmei no parágrafo anterior e também porque sinta que há coisas em mim que nunca hão-de mudar. Sinto que a memória da minha história tem uma influência tão marcante na minha forma de ser, que só com um blackout total no sistema e perdendo a memória de tudo é que deixaria de ser quem sou.

Por isso, há coisas que nunca hão-de mudar. À conexões que não se conseguem desfazer, memórias que não podemos alterar. A única coisa a fazer é acrescentar. O cérebro não desaprende, reaprende. Novas conexões por cima de velhas conexões. São feitos novos caminhos, e é através disso que mudança surge. Os caminhos velhos já não são percorridos, mas sim os novos.

Posto isto, desperta-se em mim outra pergunta. Então, como consegue o cérebro guardar tanta informação? Dou um passo atrás, e volto à mesma lengalenga. Talvez os caminhos antigos, por deixarem de ser pisados, desapareçam com o tempo.

Mesmo assim, acredito que nunca deixaremos de ser quem somos, os caminhos sombrios estarão sempre lá para serem pisados junto com as ruelas claras, a única coisa que muda é a direcção neural que tomaremos.

Sempre a mesma dúvida. Liberdade?

Sempre a mesma dúvida, serei livre ou não? Serei eu dono das minhas escolhas? É a liberdade real ou não?

Há tantas teorias que nem sei por onde começar, desisto antes de tentar. Esta dúvida começou quando na igreja nos apresentavam o Deus omnipresente, omnisciente, que ouve as nossas preces e nos ajuda em tudo na vida. Ele rodeia-nos e envolve-nos, estando sempre presente em todo o nosso caminho. Ele é o início e o fim, Ele conhece o início e o fim. Sendo assim, o destino está traçado ou não? Se está, é obvio que não somos livres. E se não está traçado?

Neste caso, se Deus é um ser interveniente nas nossas vidas é lógico que também não somos livres. Daqui surge a pergunta se Deus é interveniente porquê tanto sofrimento? E a esta questão respondemos com a liberdade. O Ser que nos criou tornou-nos livres, o sofrimento surge da forma errónea de como usufruímos dessa liberdade. Deus não pode intervir, pois assim a liberdade passaria a ser parcial, ou seja, não liberdade, e não total como Ele implementou.

Sei que estes argumentos são um bocado rascas, pois podem ser perfeitamente rebatidos com a analogia de “Deus-Pai”. Isto quer dizer que como filhos temos uma liberdade limitada, e Ele como Pai intervém quando necessário. Mesmo assim, penso que a sua intervenção como pai é um pouco negligente (como qualquer filho que se preze penso assim). Por outro lado, liberdade limitada é sinónimo de nenhuma liberdade, pois eu aqui refiro-me à liberdade num sentido universal e total.

À parte disto, voltando ao assunto da intervenção ou não intervenção divina associada à liberdade, mesmo que Deus não intervenha a nossa liberdade continua a ser uma ilusão, pelo facto dele conhecer o início e o fim (o alfa e o ómega). Talvez a liberdade só seja real se a Sua omnisciência e omnipresença não existirem, junto com a sua não intervenção, ou levando ao extremo, se Ele não existir.

E, chegando a este patamar, outra questão surge. Seremos mesmo livres só pelo simples facto de Deus não existir? Esta é a minha pertinente pergunta, pois mesmo negando a existência de Deus não faz com que eu me sinta livre. Sinto que todas as minhas acções, desejos, pensamentos, são influenciados pelo meio; pelas necessidades básicas; pela cultura; por aquilo que sou e por aquilo que quero ser. Refutar isto afirmando que posso negar as necessidades e evitar a influência do ambiente, é criar mais uma ilusão de que sou livre. Isto porque, a negação é influência do que quero negar.

O que é a liberdade? Onde está a liberdade? Apesar de tudo, não gosto (como defesa do self, obviamente) de afirmar que a liberdade é uma ilusão. Também não afirmo que seja uma utopia. Digamos que é mais um ideal. Sendo assim é atingível. E penso, apesar de todo o emaranhado de influências que me empurram e puxam, eu posso aos poucos escolher quem me puxa e quem me empurra. Com uma liberdade limitada apenas à escolha, eu construo-me aos poucos em direcção à Liberdade.

Sim, gosto de pensar assim.

Work

Todos querem ser lideres mas ninguém sabe liderar.
Todos querem ser inteligentes mas ninguém sabe ser sábio.
Para ser líder basta ser inteligente, para liderar basta ser-se sábio.

Espelho meu… Espelho meu… Quem sou eu?

Parece que não me enganei quando disse que expor os meus pensamentos no papel faz com que surjam novas perguntas e respostas.

Neste caso, após ter postado o primeiro momento em que formulei a pergunta existencialista “quem sou eu”, dei pró mim a questionar a ordem cronológica desse momento. Terá mesmo sido aí o apogeu da minha busca? Lembrei-me então, que quando miúdo, criança entre os 5/6 anos (não me lembro bem), ficava longos momentos frente ao espelho, a perguntar “quem sou eu?”, “quem se esconde por detrás do meu olhar?”.

Há uns tempos atrás, enquanto lia um livrito de psicologia, dei de caras com um capítulo intitulado “O estádio do espelho”. Novamente peguei no livro ontem à noite. Li novamente o capítulo e fiquei exactamente a perceber o mesmo que anteriormente, ou seja, nada! Demasiado técnico.

Mas, segundo o que entendi, a fase do espelho está relacionada com a formulação do ego e do ego ideal. Dá-se entre os 6 e os 18 meses. A criança reconhece a sua imagem no espelho e distingue a imagem exterior da interior.

Por isso, penso que o estádio do espelho não se aplica à situação referida anteriormente. O problema que se coloca, já não é reconhecer a imagem que está reflectida, pois eu com 5 ou 6 anos já a reconhecia como minha. O problema é eu só reconhecer essa imagem. Ela abstrai-me de me ver a mim mesmo e tento olhar para além dela. Agora que penso nisso, acho que fiz exactamente o contrário do que acontece na fase do espelho. Neste caso, conscientemente, tento me desidentificar da imagem, na tentativa de encontrar algo mais que o ego, que o eu. Tento encontrar aquilo que sou, a verdadeira essência de mim.

Bem, por fim, por mais que olha-se para o espelho, não chegava a conclusão nenhuma. E ainda hoje, esse mistério faz-me sentir o corarão a bombear rápido de mais. Não, já não olho para o espelho com o intuito anterior. Agora já não preciso da sua ajuda, basta-me pensar.

Depois de investigar este estádio, cheguei à conclusão que a pergunta inicial deste texto já não é viável. Parece-me que, tanto a situação em que olho para o céu e me questiono, como a do espelho, foram exactamente na mesma altura. Não interessa a sua ordem. Foi há tanto tempo, que não me recordo. O que interessa é que eu sinto, a situação em que olho para o céu, como a mais importante. Foi onde a busca deixou de ser passiva, para se tornar activa.

O que eu quero dizer com isto? A busca de mim mesmo deixou de estar só centrada em mim. A busca de mim mesmo passou a estar relacionada com os segredos do universo.

Começo

Antes de começar, quero deixar explicito (ou mais o menos explicito) o propósito deste blog. Ora, como fazer textos bonitos e limpinhos dá muito trabalho, decidi criar um blog cujo objectivo é simplesmente o de expor ideias.

Ao contrário do blog “refuta”, neste não tentarei reproduzir crónicas, ensaios ou contos. Este é um blog um pouco mais pessoal, mas não pensem que me vou por para aqui a contar a minha vida (talvez um quito). O que eu pretendo é expor aquela parte de mim que passa a vida encravada no meu cérebro, sem me preocupar em escrever para que todos entendam as minhas ideias.

O meu problema é que por mais que tente não pensar, penso. Por mais que tente não questionar, questiono. Nem sei porque disse “por mais que tente”. Não tento! Gosto de ser assim, de procurar mais as perguntas do que as respostas. E são essas perguntas encravadas no meu encéfalo que eu quero expor. Quase como que arrancá-las, colocá-las à frente dos olhos, para poder pensar melhor nelas, de modo a achar novas respostas que me levarão a novas perguntas.

Já agora, sabem como tudo começou? Tudo começou quando eu, ainda criança, entre cinco ou seis anos de idade, olhei para o céu estrelado e pensei: Quem sou eu?

A Incongruência do Apocalipse

Hoje decido abordar a visão cristã do apocalipse. Este tema surge da minha descrença em relação à visão mitológica e supersticiosa dos dias do fim. Diabo, dragão, anjos, cavaleiros, morte, doença, batalhas, entre outras coisas, fazem parte desta história. Sendo assim, não consigo leva-la à letra. Em segundo lugar, mesmo que observe esta fantasia através de um sentido metafórico, não pude deixar de descobrir uma incoerência no processo de escolha e julgamento de deus.

O apocalipse é uma história longa, em que nos é narrado o aparecimento do anticristo, o aparecimento dos cavaleiros, a ressurreição dos mortos, etc., mas para mim todo ele se resume ao julgamento final. Todo o processo anterior tem como meta final e apogeu o julgamento de deus.

Ora, é ai nesse desfecho que deus divide os seres humanos segundo as suas obras e segundo a sua vontade. Ele detém a última palavra condenando quem foi pecador e dando vida eterna a quem praticou condignamente os seus mandamentos.

O que eu gostaria de saber é porque é que deus age segundo parâmetros humanos baixos e moralmente incorrectos? Porque é que deus condena uns ao eterno sofrimento e outros à salvação eterna? Não será esta uma atitude precipitada e errónea, sendo já praticada pelos seres humanos quando condenam outros?

Reparem, tal como a religião possui leis que visam construir o homem para que este se salve e construa o paraíso na terra, também a sociedade determina leis e regulamentos que têm como objectivo organizar e manter a ordem, com o objectivo de que levemos uma vida justa e boa. Alguém que vá contra essas leis é automaticamente excluído da sociedade. Coloca-se esse indivíduo numa prisão, sem direito a tratamentos psicológicos ou a educação social. Muitas vezes encarcerados em condições deploráveis. Estes homens e mulheres condenam-se a eles mesmos, pois já sabiam o que os esperava, e nós reforçamos ainda mais a sua desgraça.

Felizmente que hoje em dia, nas sociedades mais conscientes civicamente, se tenta implementar uma sistema prisional que visa a educação, consciencialização e ajuda das pessoas que se deslocam da realidade. Vem-me à cabeça o exemplo do sistema prisional da Austrália.

Enfim, se o ser humano já se começa a aperceber que é imoral condenar e excluir sem tentar salvar, porque é que deus não se apercebe?Ele está para alem do espaço e do tempo, ele que é infinito no amor, porque é que condena e deixa os seres humanos se condenarem? Porque é que não lhes dá uma, duas, três, infinitas oportunidades?Não se apercebe ele que o seu julgamento é incorrecto e a sua atitude imoral. Que este julgamento se torna, hoje em dia, tão reprovável como o julgamento da nossa sociedade?

Será que deus se encontra assim tão para além do moral e do imoral? Se ele está, graças a deus que nós não.