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Mata esta sede

Pára no ar um poema parecido contigo
Cai sobre a terra uma rima encadeada
Leva com ela a tua esperança embrulhada
Nasce um sorriso preso ao ramo de um verso
Cai sobre mim, desperta a força do universo
A gravidade já não me sustenta
Há uma ilusão para além do planeta
Na tua mão, na tua mão…

E eu vou andando por ai
Entre o sonho e a realidade
Misturo todos os meus sentidos
No horizonte talvez te encontre

No fim deste asfalto
Há um buraco que me espera
Se o sol se poe
Cresce um medo que me encerra

Na tua mão a fogueira que ilumina
Nos teus gestos o carinho que me incita

Vem devagar
Faz-me ver e acreditar
Que as tuas chagas são verdadeiras
Estão aqui para me curar

Mata esta sede que sinto no meu eu
Crava um punhal no ego que Deus me deu

Nascer de novo

quero ser como uma criança
correr até adormecer
saltar até me fatigar
rir, rir
sentir, sentir
chorar sem me importar
arrebentar
futuro longo
passado curto
memórias vagas

quero ser ao contrário
brincar de trabalhar
trabalhar de brincar
despojar-me das regras sociais
fazer perguntas despropositadas
inusitadas, inocentes, perdoadas

quero ser, 
pequena, imortal, invencível
e ter vocação de fantasista

deem-me o cálice sagrado
deixem-me beber a água do cordeiro imolado
esqueçam a juventude eterna
só queria, para sempre, viver naquela outra era

vem Nicodemos,
perguntemos, perguntemos…


Brinca com o meu coração

Queres brincar com o meu coração? Tudo bem, não há problema. Faz dele gato-sapato. Chama-me quando quiseres. Rejeita-me quando te apetecer.
Sim! Faz de mim objeto do teu ego! Egotiza-te em mim! Marca-te em brasa na minha carne! Imprime-te em intenso estampado na minha energia, para quando saíres a rasgares violentamente.
Faz de mim um banana. Um mole banana passivo. O teu bébé, o teu menininho, o teu criado, o teu escravo. Enche-me de desejo para te divertires a não o satisfazer. Humilha-me! Humilha-me à frente de todos, à frente de mim mesmo. Espezinha-me. Esmaga o meu coração. Tortura-me emocionalmente.
Faz o que sabes fazer de melhor. Ser bela e endeusada, diabólica e endiabrada. Um desejo impossível de alcançar, um poder utópico de obter. Hum… como eu te quero. Como eu agonizo em lascívia, em gula, em luxuria, em… AAAARRRRRR… Provoca-me…
Quando te cansares… Bem!... Quanto de cansares… não te preocupes, irei brincar para outro sítio. 

Donzela

surge o sol pela neblina cerrada
ouço as ondas
batem os sons
na madrugada
confundo o azul
o céu
misturo-o na areia da praia
e o branco
o mar
conflui-se no ar

olha, a donzela à janela
rosto vidrado
olhar abstrato
no horizonte de si
oh, espera só mais um pouco
inquieta
teu peito
na saudade de mim

um pássaro que voa
uma,
longa,
brisa
do ar…
a espuma que arrefece na areia de uma onda
há mar e mar
há que ir, e voltar…

Colecção Obsessiva de Sentimentos

Para quem ainda não sabe,

É com muito prazer que anuncio o meu primeiro livro “Colecção Obsessiva de Sentimentos”, publicado através da Corpos Editora, ilustração Ana Lógica.
Trata-se de um conjunto de poemas, crónicas e contos existencialistas. O seu lançamento terá lugar na Casa do Alto, dia 19 de Maio, pelas 19 horas.
Terei todo o gosto em vos receber.
Confirmem através do meu email ou do link https://www.facebook.com/events/377235515661201/.

Obrigado,
Mário Viterbo e Silva

Complexo

Escorre a saliva pelo queixo.
Bate-lhe a fome no estômago.
Dentes amarelos, castanhos, verdes, bafo a vermes.
Guincha naquele espaço, naquele cubículo, meio metro quadrado.
Preso, encurralado.

Quer matar, quer comer, quer foder,
Quer, só por querer…
Sentir a vida do outro a escoar, o orgulho a se esvair, o medo, a morte a subir.
Grunhido após grunhido esporra,
Enche de seiva a masmorra.
Bate, cabeceia, esmurra, planeia.
Naquele espaço sonha baixo, o dia da ceifa.

O mundo move-se, gira constantemente, agitadamente, ignorantemente.
Esquece-se, mente-se,
Nada aberra, no oculto da serra”.

Mas os locais sabem, tremem, rezam, esperam, calam, desesperam.
Protegem-se com o sangue do cordeiro.
Mas nada pára os guinchos do bezerro.
Nas árvores se arrastam, nas casas penetram, as almas almejam.
Fujam,
Os muros estão a ficar gastos.
Matem,
Aclamem a cólera tingida.

Seus braços retorcidos esgadelham as costas, com arranhares repetitivos.
Crava as unhas na pele grossa, chagas putrefactas, espasmos estereotipados,
                                                                                                               Olhos revirados.
mais e mais fome

Por isso, matem por ele, dilacerem por ele, cortem por ele.

Alimentem os Eus, o Complexo Monstro premente,
Que geme na serra da nossa mente.

Despertar para dentro de mim

…preto…
…branco…
…preto...
…como será despertar de um sonho? Disso eu lembro-me. Mas…
…branco…
…preto…
…cinzento…
…como será despertar do real?
Talvez… talvez seja como acordar com ressaca.
A típica dor de cabeça, a boca seca a saber a sarro, a aguçada alfinetada da sensibilidade à luz.
Mas isso… Bem, isso é um acordar para a realidade depois de um sonho mal construído.
Agora, um acordar da realidade é algo… Pelo menos o acordar da minha realidade. É assim… como a ressaca, mas a dor… essa não é na cabeça, a secura a saber a sarro não se limita à boca. A luz, não se espeta como agulhas pelos olhos, perfura-me o ser num local fora de mim. E, o som… o som é… É como o chiar de centenas de melros, penetrando lentamente, no nosso torpor sossegado.
E foi assim. Foi assim que me vi. Foi assim que me senti, lentamente, a despertar para dentro de mim.
A primeira coisa foi o piar imperceptível dos melros. O resto, veio por acréscimo.
Senti-me pesado, bêbado, charrado, numa bad trip.
Mas… não era eu.
Aliás, não era só eu. Todo o espaço confluía de mim para mim, num pesado, vertiginoso, sufocante movimento. O frio do chão começou-me a incomodar. O cheiro… Cheiro arranhado de caca de pássaro.
Abri os olhos. Levantei-me tropegamente.
Pensei… Vi… Imaginei…
Cinzento…
Cercava-me um género de pombal. Caca de pássaro estendia-se por todo o lado. Manchava tudo de branco e de preto, resultando numa mescla sépia, peganhenta, fedorenta.
Os vidros erguiam-se, desde a base até ao telhado, manchados num tumulto de cagadelas que me impediam de ver lá para fora.
O tecto, de acrílico, misturava-se na cor suja do céu, aprofundava-o. Um céu preto, branco, cinzento, sulcado e desenhado por centenas de melros, pousados, pendurados nas traves horizontais do pombal. Chiavam ininterruptamente, martelando irritantemente, penetrantemente. Cada vez mais alto num agudo crescente.
Franzi a testa. Levei as mãos às têmporas.
Lentamente percebi a irrealidade estranha que me cercava.
Sustive a respiração.
Olhos, milhares de olhos. Pontos negros, fixos, cegos.
Miravam-me. Escrutinavam-me.
Apesar de todos estes olhos piarem num estrondoso grito, nenhum bico se movia, nenhum pássaro reagia. E eu… Agonia.
Foda-se!...
Pensei...