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Entranhas


Ó Emoção, querer que me faz querer!
Te invoco, do fundo do meu âmago,
Por de entre o estômago e o peito,
Por de entre o umbigo,
As entranhas fervendo,
Exalam um vapor aguacento…
Sobe ao chão! Desce à merda! Cai no céu! Ergue a ideia!
És mais do que eu possa querer!
Em exacta medida do meu suportar.
Hei de te arrancar!

Homem-árvore



Lá fora o sol brilha, cai a chuva, diminuta, como se flutuasse pelo ar.
O arco-íris desponta por entre o castanho-verde.
Sinuosamente avança, a estrada cimentada, longamente deitada.
Cerca-a a floresta, sussurrante, densa.
Tão denso é o seu verde, tão condensado o seu ar,
difícil será, dez metros espreitar.
Quem lograr deter-se pela berma,
cuidado ao espreitar pelas sombras da cerca.
Há primeira vista nada poderá ver, 
a não ser uma figura indistinta, um sentimento a aparecer.
Algo que lá não estava
ergue-se do seu peito
do muro das árvores distingue-se um corpo desfeito.
Rugoso e castanho como o tronco que o encerra
seus olhos vítreos se fixam em quem espera.

Há muito tempo atrás,
num tempo sem exactidão,
sem espaço ou lugar,
sem muita precisão.
Longe de quem queria, 
um homem gemia, gemia.
A morte, a solidão, o abandono,o desconforto.
Sua mente desvanecia, sua carne definhava,
perdera-se o amor de quem ele amara.
Ferros em brasa, agulhas finas, um punhal estreito,
pela carne, pelas veias, pelo peito.
A paixão, a chaga que da ausência ardia.
Quem?... Quem?... Já não se conhecia.
Uma folha de papel amarfanhada,
seguiu, só, pela estrada.

Dias e dias caminhou à chuva,
dias e dias caminhou ao sol,
dia-a-dia, 
          quem disse que o tempo cura,
dia-a-dia, 
          perdido em dó.
Doíam-lhe as pernas, os braços,
os músculos retesos e amassados,
o peito tísico, as costas marrecas, o cansaço…

Decidiu repousar no frio de uma árvore e adormecer nos meandros do desconhecido.

As estações foram-se, as luas passaram,
uma silhueta perdida,
um símbolo dos que amaram.

Quem parar naquele lugar
talvez não se abstraia de sentir o estranho.
Uma sensação a surgir de um carvalho,
um vislumbre morto, vago,
inerte, apático,
apenas sofrimento estático.
Dele se exala a podridão,
no entanto, ainda bate lá um coração.
O mundo, o universo, as coisas, eu, tu, o meu sentido de mim. Tudo pode ser um mero sonho, mas não é por isso que deixa de ser menos real.
Apenas é outra realidade.
Intuo que o tempo se mova muito mais lentamente do que aquilo que percepcionámos.
Aliás, o tempo não se move. O que se move são as coisas. O tempo será apenas a variação espacial destas.
Sendo assim, intuo que as coisas se movam muito mais lentamente do que aquilo que percepcionámos.
Porquê? Não sei. Apenas intuo, e por isso, iludo-me. O movimento é real, é físico, é perceptível aqui e agora. Mas a velocidade…hum…se for apenas uma mera percepção será apenas um a ilusão?
Podem as coisas existir estáticas?

Desisti

Um homem não está acabado quando enfrenta a derrota. Ele está acabado quando desiste.”
Richard Nixon

Muitas das falhas da vida acontecem quando as pessoas não percebem o quão perto estão quando desistem.”
Thomas Edison

Conserve os olhos fixos num ideal sublime, e lute sempre pelo que deseja, pois só os fracos desistem e só quem luta é digno de vida.”
Desconhecido

Mesmo desacreditado e ignorado por todos, não posso desistir, pois para mim, vencer é nunca desistir.”
Albert Einstein

"A desistência é uma revelação."
Lispector , Clarice


Quem é o dono da razão?
Ousarás me julgar
Só por parecer que fiquei em vão?

Agarrar esta coragem,
De não ser quem quero ser,
Adiantará seguir viagem,
Se no inicio enlouquecer?

Um passo atrás,
E estou mais perto de mim.
Só por desistir,
Não quer dizer que seja o fim.


Dificil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama.
Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer.”
Bob Marley

Desisti de ser feliz. Agora me sinto muito menos infeliz.”
Micítaus do ISSÁS

Melancolia positiva

Tudo para uma perfeita manhã de melancolia positiva. A chuva desce pelas paredes da avenida e tudo se torna cinza. Os vapores condensam-se, no ar, nas superfícies, nos cheiros. Deve existir um blue qualquer que descreva esta sensação, maravilhosa.
- CHUVA! CHUVA! O BARULHO AGUADO DO MOVIMENTO DOS CARROS! - penso eu…

Há um ritmo de cowboy em tudo isto!

Tanta gente a passar. Têm cara de quem não pensa em nada. Isso significa que pensarão certamente - que se fodam os outros - seguem caminho… sempre seguindo caminho... sem nada na mente.
Fumo um cigarro. Alguém chora atrás de mim. E eu penso numa rima.

Faz frio. O mundo é duro.

Abraça-me neste calor seguro.

Nas ruínas de Babel



sinto os trovões ao longe...
ouço a chuva a cair...
há um vento forte
que me ínsita a seguir...
naquele espaço vazio...
onde não sei existir...

Não é assim tão mau não saber quem sou.

ouço os sinos ao longe...
da tempestade a surgir...
o rufar forte
do meu medo, a cair!...

Não me importa mais não saber quem sou!
Ergo-me na alegria de ver Babel ruir!...

percorre um lufar suave...
pelos destroços do tempo,
pelas ruínas da torre,
se ergue o silêncio do Ego!...

ecoa!... no meu peito!...
a certeza de mim!...
passado!... futuro!...
não pertencem aqui!...

Não me importa mais não saber quem sou!
Ergo-me na alegria de ver Babel ruir!...