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Paradoxo

o paradoxo embrenha-se
no costume da realidade
e "quem sou eu" deixa de ser

a ser seja "quem sou"

ilude-me o pensamento
cada vez que penso em mim
sinto-me real
mas apenas penso sentir-me assim

pergunta o eu que é o eu
quem sou quem sou
sou a questão sobre a questão
sobre a questão sobre a questão

se assim não fosse
se me conhecesse inteiramente
pararia mumificado no tempo
numa eterna ausência de movimento

o costume
embrenha-se pela realidade
o eu não existe
e existo apenas
neste paradoxo que nasce
A impermanência perpetua a permanência.
A clareza foge-nos.

e se o sol fosse negro e as sombras fossem brancas?
a alegria seria tristeza e não teríamos certeza de nada.
mas que certezas poderemos nós ter?...

A Hora Enxuta














Olhai o campo que a chuva cerca,
Abafa o pranto que se liberta.
O pó do ar na terra cai,
Surge o céu limpo da alvorada,
O sol da tarde as gentes curva,
Chegar vem a hora enxuta.

Gastos, cansados, anoitam rústicos,
Tabernas cheias, bagaços brutos,
Mulheres e homens fazem-se à vida,
Ásperos modos, surge a alegria.
Duro de roer é este mundo,
Coisa pouca dura, pouca coisa fica.

De onde vens tu meu amor!
Mais um dia de labor!

Esta enxada que a terra cava
Há de descansar em fim um dia
E tuas mãos tão calejadas
Hei de curar com beijos todos os dias.
Murmura a ceara a montes fora,
Ilumina de oiro a nossa hora.

De onde vens tu meu amor!
Mais um dia de labor!
Porque que amas tu amor!
Dancemos ao som do tambor!

Entranhas


Ó Emoção, querer que me faz querer!
Te invoco, do fundo do meu âmago,
Por de entre o estômago e o peito,
Por de entre o umbigo,
As entranhas fervendo,
Exalam um vapor aguacento…
Sobe ao chão! Desce à merda! Cai no céu! Ergue a ideia!
És mais do que eu possa querer!
Em exacta medida do meu suportar.
Hei de te arrancar!

Homem-árvore



Lá fora o sol brilha, cai a chuva, diminuta, como se flutuasse pelo ar.
O arco-íris desponta por entre o castanho-verde.
Sinuosamente avança, a estrada cimentada, longamente deitada.
Cerca-a a floresta, sussurrante, densa.
Tão denso é o seu verde, tão condensado o seu ar,
difícil será, dez metros espreitar.
Quem lograr deter-se pela berma,
cuidado ao espreitar pelas sombras da cerca.
Há primeira vista nada poderá ver, 
a não ser uma figura indistinta, um sentimento a aparecer.
Algo que lá não estava
ergue-se do seu peito
do muro das árvores distingue-se um corpo desfeito.
Rugoso e castanho como o tronco que o encerra
seus olhos vítreos se fixam em quem espera.

Há muito tempo atrás,
num tempo sem exactidão,
sem espaço ou lugar,
sem muita precisão.
Longe de quem queria, 
um homem gemia, gemia.
A morte, a solidão, o abandono,o desconforto.
Sua mente desvanecia, sua carne definhava,
perdera-se o amor de quem ele amara.
Ferros em brasa, agulhas finas, um punhal estreito,
pela carne, pelas veias, pelo peito.
A paixão, a chaga que da ausência ardia.
Quem?... Quem?... Já não se conhecia.
Uma folha de papel amarfanhada,
seguiu, só, pela estrada.

Dias e dias caminhou à chuva,
dias e dias caminhou ao sol,
dia-a-dia, 
          quem disse que o tempo cura,
dia-a-dia, 
          perdido em dó.
Doíam-lhe as pernas, os braços,
os músculos retesos e amassados,
o peito tísico, as costas marrecas, o cansaço…

Decidiu repousar no frio de uma árvore e adormecer nos meandros do desconhecido.

As estações foram-se, as luas passaram,
uma silhueta perdida,
um símbolo dos que amaram.

Quem parar naquele lugar
talvez não se abstraia de sentir o estranho.
Uma sensação a surgir de um carvalho,
um vislumbre morto, vago,
inerte, apático,
apenas sofrimento estático.
Dele se exala a podridão,
no entanto, ainda bate lá um coração.
O mundo, o universo, as coisas, eu, tu, o meu sentido de mim. Tudo pode ser um mero sonho, mas não é por isso que deixa de ser menos real.
Apenas é outra realidade.