Páginas

Pacto

Quedou-se ao fim da estrada
Num cruzamento fora do tempo,
Fez uma reza apressada
Com ela foi ter o vento.

Por uma bruma escura
Surge um ser vermelho,
Seu corpo nu se insinua
Perguntou-lhe qual o desejo.

      Há em mim uma gula
      Por um prazer eterno,
      Afasta de mim a chuva,
      Leva-me para o teu templo.

      Há em mim uma pressa
      Por um prazer efémero.
Aproxima-se dela a Besta,
Sussurra-lhe em silêncio.

      Pega nessa faca, grava o teu nome em sangue,
      Deus esta distante, para te poder julgar.
      No meu corpo quente se prende a liberdade,
      Agarra-me no falo hei de te ensinar a amar.
      Do paraíso caído surge o milagre
      Que só nas chamas do inferno hás de encontrar.

Ideias








a morte é um orgasmo que faz esquecer tudo o resto... 

David Soares em "A Conspiração dos Antepassados".

Deuses







sinto os Deuses bem perto,
procuram sangue,
sinto o seu cheiro,
buscam morte,
para em si voltar poderem-me.














Existe uma coisa engraçada quando se caminha sozinho. Para além de todas as coisas que passam por nós, a cada passo que damos é como se nos aproximássemos de mais um pensamento.
Não importa se esse pensamento é definido, ou indefinido, o que interessa é essa aproximação.
É como se as ideias, ou os pensamentos, estivessem à espera, naquele lugar. Parados em frente a uma porta, numa passadeira, por cima de uma tampa de esgoto, num cruzamento, numa esquina.
Quem sabe talvez não seja verdade. Pensamentos parados, à espera de serem intersectados, de se infiltrarem em nós, naquele lugar, naquele buraco por onde podem emergir.
Tu, que caminhas com o mesmo intuito que eu, segue os pensamentos que te levarão a mim. Deixa surgir a ideia que se chama amor.

Paradoxo

o paradoxo embrenha-se
no costume da realidade
e "quem sou eu" deixa de ser

a ser seja "quem sou"

ilude-me o pensamento
cada vez que penso em mim
sinto-me real
mas apenas penso sentir-me assim

pergunta o eu que é o eu
quem sou quem sou
sou a questão sobre a questão
sobre a questão sobre a questão

se assim não fosse
se me conhecesse inteiramente
pararia mumificado no tempo
numa eterna ausência de movimento

o costume
embrenha-se pela realidade
o eu não existe
e existo apenas
neste paradoxo que nasce
A impermanência perpetua a permanência.
A clareza foge-nos.

e se o sol fosse negro e as sombras fossem brancas?
a alegria seria tristeza e não teríamos certeza de nada.
mas que certezas poderemos nós ter?...