Há, não há,
Ele é, eu sou.
Creio, não creio.
Desconfio…
Será de mim?...
Será só por ser?...
Que será de mim?...
Sou maior que mim mesmo,
existência irreal.
Fé na razão, razão na fé.
Fé, intuição.
Eu intuo…
Fé na fé,
Duvida na fé,
Fé na dúvida.
Algo?...
Imóvel movimento de movimento imóvel,
Metafísica dialéctica
Dialéctica metafísica,
Consciente inconsciente
Inconsciente consciente,
Tensão, Pulsão, Energia…
Consciente?...
Inconsciente?...
Eu…
Lá fora...
Companheiro,
Apreciemos o vento…
Se o sol não nasce para nós,
Apreciemos a chuva…
Vem daí, caminha um pouco comigo.
Esforcemos um pouco mais o corpo a sair daqui.
Lá fora… lá fora espera-nos o escuro…
Lá fora… espera algo…
Só mais um passo comigo.
Não interessa chegar ao fim,
Importa só ir.
Apreciemos o vento…
Se o sol não nasce para nós,
Apreciemos a chuva…
Vem daí, caminha um pouco comigo.
Esforcemos um pouco mais o corpo a sair daqui.
Lá fora… lá fora espera-nos o escuro…
Lá fora… espera algo…
Só mais um passo comigo.
Não interessa chegar ao fim,
Importa só ir.
Porque somos tão iguais?
Certo dia, um amigo meu afirmou que até na diferença somo iguais. Obviamente senti a minha individualidade afectada. Propus-me logo a refutar. Afirmei que apesar de tudo, os acontecimentos mais insignificantes que acontecem na nossa vida, tocam a cada um de uma forma tão pessoal, que nos torna indiscutivelmente e completamente diferentes uns dos outros. Lógico que isto em nada contradiz a afirmação inicial, e por mais argumento com que eu me abasteça, o facto de todos nos sentirmos tocados por certos e determinados acontecimentos demonstra a nossa igualdade.
Sendo assim, temos mais parecenças do que diferenças. Negar isso imediatamente é tomar uma atitude emocional e estereotipada em relação ao mundo. E porquê esta atitude? Talvez a defesa da nossa individualidade tenha, como objectivo básico, a sobrevivência. Pois, sem auto estima talvez não sobrevivamos.
Quer seja ou não verdade o que afirmei atrás, facto real é que há sociedades que acreditam na supremacia dos seus valores e dos seus rituais, negando acerrimamente os valores dos outros.
O que essas sociedades ou pessoas não compreendem, é que os valores não variam assim tanto, só a forma como os buscamos. Qualquer sociedade, em Portugal, ou na Indonésia, tem como valores a verdade, o amor, a felicidade, a família, a protecção, a vida, entre outros. A única coisa que muda são as crenças.
Por exemplo, numa sociedade acredita-se que a felicidade se alcança através do amor, outra através das posses materiais, outra através do prazer momentâneo, e por ai fora.
Então, porque temos valores tão iguais que nos igualam de forma tão intrínseca? Penso que seja porque partimos todos da mesma equação inicial. Essa equação faz com que geneticamente, ao nascermos, precisemos de uma família, de carinho e protecção para sobrevivermos. Partimos todos do mesmo ponto inicial, a herança genética e a família. Isso faz com que todos partilhemos dos mesmos valores.
Por isso, olhando para o ser humano de uma forma geral e abrangente, penso que em termos de proporção, tanto as características que nos diferenciam como as que nos igualam, são quantitativamente equivalentes. Mas, qualitativamente “o que nos une é mais forte do que aquilo que nos separa”.
“Na arte de viver, o homem é ao mesmo tempo o artista e o objecto da sua arte, é o escultor e o mármore, o médico e o paciente.”
Nesta citação está implícita a ideia, de que o ser humano é um ser activo em relação à vida. Ponto de vista nem sempre aceite em algumas teorias.
Por exemplo, em psicologia a teoria Behaviorista, que tira partido do Empirismo, afirma que o ser humano “nasce como uma tábua rasa”. Ou seja, não nascemos com ideias inatas. Sendo assim, é o ambiente que molda o sujeito, condicionando-o. Nós seremos não aquilo que quisermos ser mas sim o que a sociedade permitir, ou quiser que nós sejamos. Este determinismo elimina qualquer responsabilidade e liberdade do ser humano.
Por outro lado, teorias como a Evolucionista, ou a Ecologista afirmam que o ser humano nasce com uma herança genética. Isto permite que este esteja apto para absorver os “inputs” ambientais, a interagir com eles e a modifica-los. Sendo assim, acaba por existir um relacionamento dual, em que um modifica o outro e vice-versa. O ser humano é então um ser activo no seu próprio desenvolvimento, com liberdade e responsabilidade pelas suas escolhas.
Deste modo, a liberdade é uma característica essencial, se quisermos definir o sujeito como ser activo ou passivo, responsável ou não responsável em relação à vida. Sem essa liberdade, sem essa responsabilidade, jamais poderíamos ser, o artista, o escultor, ou o médico. Seriamos só objecto, mármore e paciente.
Aqui se encontra a maravilha da vida, a consciência de que a nossa liberdade passa por um assumir da nossa responsabilidade. Embora essa responsabilidade seja partilhada, pois somos frutos de uma sociedade, ela é também nossa como seres de livre escolha. Como seres de livre escolha temos também a responsabilidade pelo mundo que nos rodeia. E, é esta responsabilidade pelas escolhas que aos poucos faz com que passemos de egocêntricos a altruístas. Apercebemo-nos que não podemos sair impunes pelo mal que cometemos. Tornamo-nos aptos a medir as consequências dos nossos actos. E moldamo-nos em direcção à perfeição e rectidão sabendo quais as acções melhores para atingir os valores universais e intrínsecos de cada sujeito.
Concluindo, será que é a isto que se pode chamar de ética? Porque se for, então a definição de ética como arte de viver é a mais correcta, porque tal como a arte é um caminho para o belo, a ética é um caminho para a escolha justa.
Lua Azul
A lua tem muitas cores. Branca, cinzenta, amarela, negra como o céu, ou vermelha nos filmes. Hoje, nenhuma dessas cores reflecte na sua face. Hoje, um azul-escuro preenche-a, igual aos guaches que usava na escola. É como se alguém, ao molhar o pincel dessa tinta, esborrata-se no céu uma mancha redonda e rugosa.
Da janela da minha casa a irrealidade desenrola-se perante meus olhos. A pouco e pouco mais janelas abrem. Mais cabeças saem. Mais olhos se fixam. Nas ruas travam os carros. Param os passos. Dá-se lugar à fixação do olhar no irreal.
- Mas que puta de merda é esta?
Só podia ser o malcriado do vizinho de cima a cuspir estas palavras. Infelizmente hoje vou concordar com ele.
Afasto-me da janela. Volto os meus sentidos para o silêncio da sala. Ligo a televisão e imagens saltam sem parar. Jornalistas, teólogos, filósofos, políticos lutam por falar. Deixo-me ficar por um comentador científico.
Segundo ele, ainda não tendo certezas do porquê, parece que o fenómeno do aspecto azulado da lua se deve à elevação da água do oceano. Esta, com uma força fenomenal “corre”, por assim dizer, em direcção à lua através de um cilindro, que esta própria forma, de dezenas de Km2. Extraordinariamente, ao passar a atmosfera não sofre alterações de estado, estando a depositar-se na superfície lunar e a formar uma atmosfera idêntica à da terra. Outro factor inexplicável é o facto de esta corrente de água estar a transportar todos os seres marinhos. Até agora nenhum ser humano ou barco entrou no fluxo. Estes ficam, sem explicação, na margem do tudo. Um levantamento sobre as consequências confirma que, por este andar, a terra ficará sem água no prazo de uma semana.
Mais nada foi dito de interesse, apenas um conjunto de avisos e propostas que me incutiram ainda mais ansiedade. Volto à janela. Encosto as mãos no parapeito incomodando-me com a sua frialdade e observo a maré vazar.
- Parece que o raio dos peixes decidiram fugir de nós. Âh vizinho? Fudemos tudo!
Outra vez o chato! Mas ao olhar para a lua, o mais chato é ter novamente que concordar com ele.
Impressões II
Toda a gente se parece com toda a gente. Sinto que isto não é só o meu pensamento estereotipador a actuar, é muito mais que isso. As pessoas estereotipam-se a si mesmas. Facto inegável é a nossa adopção (consciente ou inconsciente) de estilos idênticos aos do grupo com o qual nos identificamos: a fala; o andar; o vestir; entre muitos outros.
Incomoda-me e angustia-me, o facto de, eu não querer estereotipar e não conseguir. Sinto que, por todos quererem ser identificados com algo, e mesmo os que não têm essa intenção inevitavelmente o serem, a minha mente é forçada a estereotipar.
Por isso, ao andar pela cidade de Lisboa olho para todas as pessoas como se apontasse o dedo, classificando-as: pobre; rico; extremamente pobre; novo-rico; classe alta; classe baixa; trabalhador; sem noção; porco; beto; beta; meninos da mamã; convencido; convencida; arrogante; infeliz; cansado; bem-disposto; divertido; “top model”; snob; estrangeiro; indiano; italiano; africano; lisboeta; nortenho; “guna” (chunga); “dondoca”; homossexual; empresário; empresária; “macho men”; empreiteiro; trolha; desconfiado; inteligente; confiante; “hip hoper”; confiante; simpático; humilde; secretária; intelectual; cota; manipulador; passivo; defensivo; tóxico dependente; alcoólico; VIP; azeiteiro; até personagens da televisão (Chuck Norris, Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Britney Spears, Angelina Jolie, etc); e mais todos os outros estereótipos imagináveis.
É isto que muitas vezes se passa na minha cabeça, quando caminho pelas ruas, ou quando ando no autocarro ou metro de Lisboa. A dimensão populacional é tão vasta que cria novos grupos e aumenta os grupos já existentes, isto torna impossível ninguém se parecer com ninguém.
Sendo assim, deixo-me influenciar pela dimensão, pela mensagem que as pessoas através do aspecto querem transmitir e pela imagem que muitos não conseguem evitar, logo rotulo. Tento ver para além das evidências, mas não consigo. È como se a imagem barrasse a minha percepção ao ser humano que existe por detrás dela. Mesmo assim, essa é uma característica da qual eu não me esqueço. Que aquele à minha frente é um humano como eu, com os seus dramas, pensamentos, alegrias e tristezas.
Ao chegar a casa dou por mim a identificar-me como um ser humano, por isso penso: E eu? Com quem me pareço?
Objectivos
Todos nós temos um objectivo na vida. Um objectivo comum, universal. Qual? Exactamente! A felicidade. Básico, sim. Simples, não. Depois deste grande objectivo vêem os objectivos individuais e concretos de cada um. Estes variam dependendo da história de cada um, dos gostos de cada um, da vocação de cada um. Deles nos servimos para atingir o objectivo primordial e são precisamente eles, que tornam a felicidade simplesmente complicada. É que, ao olharmos para a vida, deparamo-nos com tantos caminhos, com tantas formas para atingir a felicidade, que acabamos por nos perder na encruzilhada.
Mas, deixemo-nos de focar naquilo que eu acho. Não é minha intenção falar de mim, nem tão pouco vos mostrar o que penso do mundo. Minha intenção é contar-vos a estória de Inês. Por isso, passemos a focar-nos nela.
Tudo o que vos falei anteriormente serve como base de comparação a esta rapariga. Ela, como tantos outros adolescentes de vinte e quatro anos, tem, digamos, uma falha na motivação, que deriva do facto de já ser feliz. Aliás, ela nunca pensa muito nisso, é-o e pronto. O que realmente ela nunca foi é infeliz. Vem de uma família de classe média. Os pais sempre lhe deram tudo, nunca lhe faltou segurança. A sua memória permitiu-lhe boas notas. Facilmente entrou num curso qualquer e facilmente acabou-o. Inês sempre viveu naquele mundinho, em que, nunca se teve que esforçar por ter o que tinha. Por isso, agora, tanto lhe faz. Objectivos? Projectos? Para quê?
A sala é normal, vulgar. Duas estantes repletas de livros estendem-se nas paredes laterais. A secretária é cinzenta, de costas para a janela que preenche a parede. Um vulgar portátil pousa nela. De resto, está vazia, apenas com as folhas do homem de meia-idade e cabelos brancos que se senta atrás dela. Sentada à frente da mesa, Inês responde às perguntas com naturalidade. Sempre calma, com um sorriso sociável e confiante. O seu coração bate tranquilamente, e nem os sovacos nem as mãos expelem suores frios.
O entrevistador não se interessa por ela devido à sua beleza, embora seja bonita, nem pela sua inteligência, simpatia, ou pelas suas respostas correctíssimas. Interessa-se por algo mais subtil, algo que tenho vindo a falar nesta estória. Interessa-se por aquilo que ela não tem.
Como é que ele sabe? Não sei. Talvez as perguntas estivessem inclinadas com esse propósito. Mas elas foram técnicas de mais. Penso que logo de inicio ele já sabia. Porque ele, com o seu olhar perspicaz vê. Vê para além das aparências. As perguntas eram apenas a introdução para a pergunta fundamental. Uma pergunta que foge a todas as outras.
- Menina Inês, como gostaria de morrer? Diz ele pausadamente.
Apesar de achar a pergunta estranha, ele não vê nenhum olhar malicioso no homem e responde:
- Nunca pensei nisso, mas acho que de facto, não gostaria.
- Sabe. Quem não morre, não vive.
Desta vez, já um pouco desconfiada e apreensiva.
- Mas o que tem isso a ver com o emprego?
- Com o emprego nada, mas consigo tudo.
A cabeça dói-lhe. Quando abre os olhos, a luz do dia introduz-lhe alfinetadas no cérebro. O chão é duro, e cheira ao dióxido de carbono dos carros. Inês encontrasse deitada no passeio e ao olhar para cima vê o homem de meia-idade e cabelos brancos. Ele ajuda-a a levantar-se. Ela, assustada e desnorteada pergunta.
- Quem é você? Que se passa aqui?
- Menina Inês. Quem eu sou não interessa. Basta-lhe saber que ajudo pessoas que precisam, é a minha condição. Você precisa. Tem vinte e quatro horas, para descobrir uma resposta a uma pergunta deveras importante para si. Se não a descobrir, sinto muito, mas morrerá. O que é viver verdadeiramente?
- Mal terminou a pergunta, o homem fica transparente e num segundo desapareceu. Nesse segundo Inês passou a ter o objectivo mais básico de todos, sobreviver. As vinte e quatro horas seguintes, bem, imaginemo-las.
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